
Nessa madrugada cortei uma peça de salame inteira e me lembrei de você.
Lembra, pai? De todas aquelas viagens que fazíamos nas férias escolares?
Viajávamos pelo sul do país, parando em qualquer tendinha de estrada, comprando queijo e salame artesanal, comendo como homens da caverna, arrancando pedaços com a boca.
Faz tempo que a gente não apronta alguma juntos.
A última vez que passeamos foi na virada cultural.
No domingo, ao invés de eu querer assistir alguma coisa com os amigos, te liguei. Eu tava super afim de ouvir música clássica, lembra? Nos encontramos na Sala São Paulo e, por falta de ingresso, andamos pelo centro.
Lembra daquela piada que contei? Aquela piada que só você entendeu? Não só entendeu como riu, realmente achou engraçada?
Na exposição de carros antigos você me apontava alguma velharia e me explicava as origens com detalhes. Quando vi um espaço vazio eu te disse "e esse carro aqui, pai, é o famoso carro invisível, criado em 1952...". Rimos e te levei pra conhecer o Museu da Língua Portuguesa.
Nós dois, sentados diante daquele mundo de palavras, ficamos mudos, curtindo.
Comentei algo sobre o grupo semântico do que aparecia na tela e você ficou fascinado. Coisas de pai, entendo. Mas coisas que apenas posso comentar com você, que ao menos você finge interesse. Você sente orgulho de mim nessas horas.
Só você mesmo! Só você pra me levar de carro a Florianópolis e voltar no mesmo dia.
Só você pra fazer eu passar perreio em avião. Só você tem a manha de me dizer que no Salgado Filho é muito complicado fazer aquela curva, que o piloto tem que ser muito do bom. E eu peidando ao teu lado, morrendo de medo, sabendo ser uma piada mas mesmo assim com medo.
Um vez estávamos presos na estrada, na BR 116. Saí do carro e disse que ia andar um pouco, tentar saber o que estava acontecendo. Era mentira, pai. Eu estava com 13 anos e precisava fumar um cigarro. Fumei, escondida, no acostamento. Essa besteira você não sabia, sabia?
Você não sabe de muita coisa.
Você me persegue de uma forma estranha, diz coisas estranhas.
Você não quer saber as boas novidades? Saber se estou bem? Se tenho sorrido um pouco?
Você só me procura pra saber onde estou. Sempre onde estou.
Onde você acha que estou, pai?
Estou nessa casa de merda, ou na casa de um sujeito de merda, nessa cidade de merda, ou em outra cidade de merda, porque toda cidade é uma merda, toda cidade tem um bar de merda, um cara de merda, um povo de merda, porque merda atrai merda, e eu sou uma merda.
Então, pai, eu estou na merda! É onde sempre estou.
Estou presa dentro desse corpo, tendo que acordar comigo, dormir comigo, todo dia.
Estu presa nesse corpo onde o cérebro comanda meu coração, e meu coração dá ordens erradas aos meus impulsos.